2 de mai de 2017

Resilience #03


Poucas coisas me chamavam a atenção naquela época...

Fechei os olhos por um momento, completamente entregue a aquele abraço quente e reconfortante. Era estranho que ela se encaixasse tão perfeitamente nos meus braços. Aquilo parecia muito errado. E muito bom ao mesmo tempo.

Tão preso naquele instante dolorosamente único, foi inevitável que eu voltasse dois anos no passado.



Meus pais me abandonaram nesse lugar depois do laudo oficial da minha instabilidade emocional. Além é claro, de eu ter caído de um prédio.

Quais a chances de se sobreviver depois disso? É, não muitas. Mas aqui estou eu completamente vivo. A única coisa que eu consigo afirmar em relação a isso é que eu deveria ter escolhido um prédio maior para ter caído, se é que me entendem.

Sem muita expectativa para a semana que começava, nós estávamos reunidos naquela mesma sala mais uma vez. Doze cadeiras dispostas em círculo, o mesmo ritual de sempre.

A Dra. Evergreen entrou com seus habituais saltos enormes. O toc toc me enjoava profundamente, já que eu sabia que indicavam o início de mais uma sessão em grupo.

Terapia. Odeio essa merda.

Só então reparei em uma coisa. Tinha uma cadeira a mais.

— Bom dia, pessoal – a psiquiatra disse ajeitando os óculos e o cabelo longo – Espero que tenham passado bem o final de semana. Antes de começarmos, gostaria de apresentar a nossa nova interna – ela esticou a mão para a porta semiaberta e por ela entrou uma garota de cabelos azuis.

Eu a observei de cima a baixo. Sorri chegando aos tênis rosa, aquele era o único fragmento que ela teria do mundo externo. A última corda a qual se apegar. Depois de alguns dias, sua alma seria inteiramente desse inferno.

— Esta é Juvia Lockser.

Juvia. Ela era tão perfeita quanto uma manhã chuvosa.




— Juvia – murmurei.

Lucy me soltou abruptamente.

A lembrança anterior dissipou-se como uma nuvem de fumaça. Ela me olhou, parte irritada, parte reflexiva. Enquanto eu devolvia um olhar completamente interrogativo.

— Isso não está certo Gray.

— Nada está certo Lucy.

E não estava mesmo.

— Eu quero ir a um lugar, você vem comigo?

A caminhada silenciosa não era incômoda, pelo contrário. Estar em silêncio ao lado de Lucy Heartfilia era infinitamente melhor do que estar com qualquer outra pessoa. Isso talvez porque nós dois estávamos passando pela mesma coisa.

Era trágico pensar que o que nos unia era a morte.

Passando pelos portões do cemitério do instituto, senti um frio no estômago. Desde a cerimônia eu não tinha entrado ali. Passamos por umas poucas lápides até chegar às mais recentes daquele lugar.

Lucy abaixou passando a mão pelo nome em alto relevo. Natsu Dragneel.

— O que você acha que aconteceu, Gray?

— Não tenho certeza.

A figura dela ajoelhada em frente a aquela placa de cimento me trouxe um sentimento de angústia. Desviei meus olhos para o outro bloco acinzentado, amaldiçoando o fato de estarem lado a lado.

Dei um meio sorriso, amargo, irônico, desejando que fosse eu a estar enterrado ali.

Deus sabe o quanto, eu queria estar morto naquele momento.

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